sábado, 15 de novembro de 2008

Questão de escolha

Até os 30, eram amigas inseparáveis. Saíam, viajavam e aprontavam sempre juntas. Até que uma delas se apaixonou por um estrangeiro meio aventureiro e sumiu no mundo com ele. A outra ficou com uma certa inveja, mas sabendo, bem dentro dela, que não teria coragem para fazer a mesma coisa. Continuou sua vida, casou com um homem que lhe dava paz e nunca mais teve notícias da amiga tão querida.
Vinte anos se passaram e, um dia, as duas se cruzaram num restaurante. Foi um encontro mágico e já deixaram marcado um almoço para aquela semana. Ambas chegaram 15 minutos antes da hora, tal a vontade de se reverem e de botar as notícias em dia. A que havia ganho o mundo contou que a grande paixão tinha duradopouco mais de um ano, mas, como estava em Paris, cidade que adorava, procurou um trabalho, mesmo modesto, com salário apertado, para poder ficar. Foi pulando de paixão em paixão, nas férias viajava de trem para outros países – viagens econômicas – e assim conheceu grande parte da Europa. Houve muitas noites em claro esperando que ele – o homem da hora – chegasse e muito choro de madrugada, sozinha, porque ele não apareceu. Mas houve também verões maravilhosos na Grécia, noites inesquecíveis em Veneza e momentos de intensa felicidade. Mas um dia ela acordou e se perguntou: “O que é que estou fazendo aqui?”. Resolveu voltar. E ali estava, aos 50 anos, sem trabalho, sem filhos, sem ter um homem para chamar de meu amor, tendo que começar tudo de novo e sem se entender muito bem. E quis, logo, saber da história da amiga.
A outra havia se casado, tinha dois filhos já grandes e uma vida confortável, tranqüila, sem muitas novidades. Mas era feliz, isso é o que importava.
Não tinha do que se queixar: o marido é um bom pai, não reclama de nada, chega sempre na hora e todo ano, no dia do aniversário de casamento, data que ele nunca esquece, vão jantar fora – e da última vez terminaram a noite num motel. Mas algumas bobagens a irritam. Quando, por exemplo, nos fins de semana, ele veste invariavelmente uma bermuda, camiseta, põe nos pés aquela sandália – aquela – e fica vendo futebol na televisão, seja que jogo for. Nesses longos anos de casamento nunca se sentiu atraída por outro homem, a não ser em pensamento, claro. Mas nunca o traiu, pois sente nele uma firmeza reconfortante. Toda vez que ele volta de uma viagem e ela vai esperá-lo no aeroporto, seu coração bate mais forte e pensa, na porta do desembarque: “E se ele não chegar?”, só que ele sempre chega. O bem maior desse casamento, segundo ela, é que entre os dois existe um grande respeito.
Embalada pelo segundo copo de vinho, a casada se abre e diz que o marido não precisava ser tão previsível. Ah, como gostaria que um dia ele aparecesse com um brilho diferente nos olhos – fosse de desejo, admiração ou ódio –, um brilho que significasse alguma vibração. É disso que ela sente falta; só disso, de mais nada.
A solteira, que passou todos esses anos só com esse “isso”, pensa que gostaria de ter uma casa, um marido, uma certa paz. Será que foi louca e jogou a vida fora? Já a outra fica pensando que está há 20 anos com o mesmo homem, não conheceu nada do mundo e acha que talvez devesse ter tido mais coragem de se aventurar antes de entrar num casamento tão sólido. Será que foi louca e jogou a vida fora?Elas se despedem e cada uma vai para o seu lado, sem saber, afinal, o que pensar da vida.


Danuza Leão
Citações do Záz do Integral.. rs


"O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos." Roosevelt


"Tudo que uma pessoa pode imaginar, otras podem tornar real." Júlio Verne


"Nossos fracassos são, às vezes, mais frutíferos que os êxitos." Henry Ford


"A verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las." Jean Cocteau


"Quanto maior for a crença em seus objetivos, mais depressa você os comquistará!" Maxwell Maltz


"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena." Fernando Pessoa


"Os grandes momentos da vida vêm por sim mesmos. Não tem sentido esperá-los." Thornton Wilder


"Nenhum pessimista jamais descobriu os segredos das estrelas, nem velejou a uma terra inexplorada, nem abriu um novo céu para o espírito humano." Helen Keller


"Não existe grandeza quando a simplicidade, a bondade e a verdade estão ausentes." Leão Tolstoi


"Vê mais longe a gaivota que voa mais alto." Richard Bach


"Aprendemos a voar como pássaros e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos." Martin Luther King


"Não acrescente dias à sua vida, mas vida aos seus dias." Harry Benjamin


"É possível mudar nossas vidas e atitude daqueles que nos cercam simplesmente mudando a nós mesmos." Rudolf Dreikurs


"Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida." Anônimo


"O que é a vida sem um sonho?" Edmond Rostand


"Não foi quando descobriu a América, mas quando estava prestes a descobri-la, que Colombo se sentiu feliz." Dostoievsky


"Nunca conseguiremos encontrar a verdade se nos contentarmos com aquilo que já foi encontrado.' Gilbert Tornai


"É verdade que não podemos encontrar a pedra filosofal, mas é bom que ela seja procurada; procurando-a, descobrem-se muitos bons segredos que se não procuravam." Fontenelle


"Não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis." Thomas de Quincey


"A imaginação é mais importante que o conhecimento." Albert Einstein


"Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais que incrível que pareça, só pode ser a verdade." Arthur Conan Doyle


"Mas eu descofio que a única pessoa livre, realmente livre, é aquela que não tem medo do ridículo." Luiz Fernando Veríssimo


"Felicidade é a certeza de que nossa vida não está passando inutilmente." Érico Veríssimo


"Lembra-te de que és tão bom como o que de melhor tiveres feito na vida." Billy Wilder


"Acredito firmemente que a única coisa a temer é o próprio medo." Franklin Delano Roosevelt


"Nunca a alma humana surge tão forte e nobre como quando renuncia à vingança e ousa perdoar uma ofensa." E. H. Chaplin


" A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte." Mahatma Gandhi


" Se você não perguntar o porquê das coisas, logo estará perguntando o porquê de você." Anônimo


"No fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa." Anônimo


" A morte do homem começa no instante em que ele desiste de aprender." Albino Teixeira


" Um passo à frente... e você não está mais no mesmo lugar!" Chico Science


" O único homem que não erra é aquele que nunca faz nada." Rossevelt


" A maioria de nossos equívocos na vida nascem quando, ao dever pensar, sentimos e, ao dever sentir, pensamos." J. Churton Collins


"Despreza as estradas largas, segue os carreiros." Pitágoras


" As pessoas dividem-se em duas categorias: umas procuram e não encontram; outras encontram mas não ficam satisfeitas." Eminescu


" O homem é absurdo por aquilo que busca, grande por aquilo que encontra." Paul Valéry


"Aquele que se conhece é o único senhor de si próprio." Pierre de Ronsard




domingo, 9 de novembro de 2008

De Fé


sempre que eu preciso me desconectar
todos os caminhos levam ao mesmo lugar:
meu esconderijo, meu altar
quando todo mundo quer me crucificar
...eu só quero estar com você...
(ficar com você)
quando o tempo fecha e o céu quer desabar
perto do limite, difícil de aguentar
eu volto pra casa, te peço pra ficar...
...em silêncio...só ficar...
eu tenho muitos amigos, tenho discos e livros
mas quando eu mais preciso...eu só tenho você
tenho sorte e juízo
cartão de crédito e um imenso disco rígido
mas quando eu mais preciso...eu só tenho você
...quando eu mais preciso... só tenho você
tenho a consciência em paz (só tenho você)
tenho mais do que eu preciso (só tenho você)
mas, se eu preciso de paz, eu só tenho você
tenho muito mais dúvidas do que certezas
hoje, com certeza, eu só tenho você
tenho medo de cobras...já tive medo do escuro
tenho medo de te perder


Humberto Gessinger

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Simplicidade feminina

Os homens não entendem as mulheres. Por que será? Elas são seres simples, e bastaprestar um pouquinho de atenção para saber o que passa em suas mentes. Mas, como elas não costumam dizer o que sentem, e eles não costumam perguntar, permanece a incompreensão. Para começar, uma mulher precisa, acima de tudo, se sentir desejada o tempo todo. Nada lhe agrada mais do que entrar num restaurante e sentir que todos olham para ela. Mulher sente isso no ar, e tem mais: não é necessário que seja um homem ao qual ela dedicaria ao menos um minuto de seus pensamentos. Se uma mulher receber o galanteio de um feirante - não que eles sejam os reis da sutileza ou, aliás, por isso mesmo -, se acha o máximo. E existem algumas que, quando estão com o moral baixo, vão dar uma volta no centro comercial da cidade, onde os homens são mais sensíveis ao charme feminino. Bem mais, seguramente, do que nos desfiles de moda.A obrigação de um homem é desejar a mulher que está com ele. Uma amiga me contou que se encontrou com um conhecido num avião e logo depois da decolagem ele perguntou, à quei ma-roupa, se ela queria transar com ele. Ela - no mínimo pelo inesperado da pergunta - nem soube o que responder. Concluiu o cavalheiro: "Bem, eu já fi z minha obrigação, então não se fala mais nisso''. Um gênio, convenhamos.Uma das coisas que os homens não sabem, e jamais saberão, é como agir depois da primeira transa. Vamos supor que tenha sido na casa dele. Quando ela acorda e abre os olhos, a primeira coisa em que pensa é: "Ai, meu Deus, e agora?" Levanta-se na ponta dos pés, recolhe os sapatos, a bolsa, as meias, esquece os brincos, claro, e sai de mansinho para que ele não acorde. Nessa hora só quer chegar em casa.Depois de tomar um banho, a cabeça começa a clarear e ela não sabe se muda de cidade, só para não encontrá-lo. O telefone fica na secretária de medo que seja ele - Deus a livre. A noite chega e ela começa a ficar nervosa. Não quer vê-lo nunca mais, mas ele tinha obrigação de ligar. Mas nada. Ah, que ódio. Ela tenta justificar. Afinal, saiu sem nem deixar um bilhete. Mas, bem lá no fundo, ela não entende como, depois de tudo o que aconteceu, ele não entra porta adentro dizendo: "Eu tinha que te ver".Pelo sim, pelo não, põe um jeans, uma camiseta e faz um rabo-de-cavalo para bancar a simplesinha se ele aparecer. Mas nada. A coisa começa a ficar preta. A não ser que ele tenha sofrido um infarto, nada explica esse silêncio. Se ele não der uma demonstração rápida de que aquela ficará como a noite mais inesquecível de sua vida, por mais moderna e liberada que ela seja, vai odiar es se homem como só uma mulher é capaz. Ao mesmo tempo, daria tudo na vida para que ele telefonasse. Afi nal, charmoso ele é. Mas, como seu prazo emocional está no limite, se ele ligar vai tratá-lo como se trata um cachorro. Elas são assim. Mas vocês, homens, ainda não aprenderam? Custa ligar? Nem que seja para dizer que ela esqueceu os brincos?


Danuza Leão

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Essa Noite Não


A cidade enlouquece sonhos tortos

Na verdade nada é o que parece ser

As pessoas enlouquecem calmamente

Viciosamente, sem prazer

A maior expressão da angústia

Pode ser a depressão

Algo que você pressente

Indefinível

Mas não tente se matar

Pelo menos essa noite não

As cortinas transparentes não revelam

O que é solitude, o que é solidão

Um desejo violento bate sem querer

Pânico, vertigem, obsessão

A maior expressão da angústia

Pode ser a depressão

Algo que você pressente

Indefinível

Mas não tente se matar

Pelo menos essa noite não

Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo

Seus fantasmas, seu enredo, seu destino

Toda noite uma imagem diferente

Consciente, inconsciente, desatino

A maior expressão da angústia

Pode ser a depressão

Algo que você pressente

Indefinível

Mas não tente se matar

Pelo menos essa noite não

Essa noite não


(Lobão)

Corações Psicodélicos


Ainda me lembro daquele beijo spank punk violento
Iluminando o céu cinzento, eu quero você inteira
Gosto muito do seu jeito, qualquer nota bossa nova
Bossa nova qualquer nota, eu quero você na veia
E a vida passa na TV
E o meu caso é com você
Fico louco sem saber
Sim pro sol, sim prá lua
Eu quero você toda nua
Sim prá tudo que você quiser
Gosto muito do seu jeito, rock'n roll meio nonsense
Rock'n roll meio nonsense, prá acabar com essa
inocência
E o complexo de decência no meio do salão
E a vida passa na TV
E o meu caso é com você
Fico louco sem saber
Sim pro sol, sim prá lua
Eu quero você toda nua
Sim prá tudo que você quiser
Hoje é festa na floresta, toda tribo ateia som
Toda taba ateia sol só tomando água de coco
E feliz de quem tá triste
No meio dessa confusão


(Lobão - Bernardo Vilhena - Júlio)

RÁDIO BLÁ

Ela adora me fazer de otário
Para entre amigas ter o que falar
É a onda da paixão paranóica
Praticando sexo como jogo de azar
Uma noite ela me disse "quero me apaixonar"
Como quem pede desculpas a si mesmo
A paixão não tem nada a ver com a vontade
Quando bate é o alarme de um louco desejo
Não dá para controlar, não dá
Não dá pra planejar
Eu ligo o rádio
E blá, blá, blá, blá, blá, blá
Eu te amo
Sua vida burguesa é um romance
Um roteiro de intrigas
Pra Fellini filmar
Cercada de drogas, de amigos inúteis
Ninguém pensaria que ela quer namorar
Reconheço que ela me deixa inseguro
Sou louco por ela e não sei o que falar
O que eu quero é que ela quebre a minha rotina
Que fique comigo e deseje me amar.

(Lobão - Arnaldo Brandão - Tavinho Paes)

Profundamente


Quando ontem adormeci

Na noite de São João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes, cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balõesPassavam, errantes

Silenciosamente

Apenas de vez em quando

O ruído de um bonde

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João

Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó

Meu avô

Totônio Rodrigues

TomásiaRosa

Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.


Por Manuel Bandeira

A ÚLTIMA CRÔNICA


A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.


Por Fernando Sabino

Sem Sexo até 2010


Eu nunca havia entendido porque as necessidades sexuais dos homens e das mulheres são tão diferentes.Nunca tinha entendido isso de 'Marte e Vênus'.E nunca tinha entendido porque os homens pensam com a cabeça e as mulheres com o coração.Uma noite, na semana passada, minha mulher e eu estávamos indo para a cama.Bem, começamos a ficar a vontade, fazer carinhos, provocações, o maior 'T' e, nesse momento, ela parou e me disse:- Acho que agora não quero, só quero que você me abrace...Eu falei: - O QUEEE???Ela falou: - Você não sabe se conectar com as minhas necessidades emocionais como mulher.Comecei a pensar no que podia ter falhado. No final, assumi que aquela noite não ia rolar nada, virei e dormi. No dia seguinte, fomos ao shopping.Entramos em uma grande loja de departamentos. Fui dar uma volta enquanto ela experimentava três modelitos caríssimos. Como estava difícil escolher entre um ou outro, falei para comprar os três. Então, ela me falou que precisava de uns sapatos que combinassem a R$ 200,00 cada par. Respondi que tudo bem.Depois fomos a seção de joalheria, onde gostou de uns brincos de diamantes e eu concordei que comprasse. Estava tão emocionada!!! Deveria estar pensando que fiquei louco. Acho até que estava me testando quando pediu uma raquetede tênis, porque nem tênis ela joga. Acredito que acabei com seus esquemas e paradigmas quando falei que sim. Ela estava quase excitada sexualmente depois de tudo isso. Vocês tinham que ver a carinha dela, toda feliz!Quando ela falou: - Vamos passar no caixa para pagar, amor?Daí eu disse: - Acho que agora não quero mais comprar tudo isso, meu bem...Só quero que você me abrace. Ela ficou pálida. No momento em que começou a ficar com cara de querer me matar, falei: - Você não sabe se conectar com as minhas necessidades financeiras de homem.Vinguei-me! Mas acredito que o sexo acabou pra mim até o Natal de 2010.




(Luiz Fernando Veríssimo)

À culpa!



O que é isso, companheira? Sei que prometi mandar notícias o quanto antes e andava cheia de remorsos por não tê-lo feito ainda, mas nada justifica as acusações que você me faz.
Você diz que eu não me importo com você, quando todos sabem que pagar tudo que lhe devo é uma das minhas principais preocupações. Pergunte às minhas amigas: falo de você quase todo dia. De como sinto o coração apertar sempre que me lembro do que você significou em minha vida.
Curioso que, desde que nos conhecemos, você causa em mim essa sensação de estar deixando de cumprir algum compromisso que assumi. Acho que é a maneira como você franze as sobrancelhas quando olha para as pessoas; parece que está constantemente querendo nos lembrar de alguma coisa importante que esquecemos.
Desculpas, Culpa, mas fiquei magoada com sua idéia a meu respeito e gostaria de, mais uma vez, deixar claro que não quero me eximir de você. Mesmo que quisesse, seria impossível, psicologicamente falando. Estamos ligadas para sempre, eu e você, por mil motivos: passamos a infância juntas, fomos colegas no colégio católico, éramos inseparáveis na adolescência.
Enfim, sou incapaz de te esquecer, mesmo quando tento. Tudo me lembra você: as frutas que não como, as ligações que não faço, o remédio que não tomo, a saudade que não sinto
Tem um livro, Culpa, que me recorda bastante você: O PEQUENO PRÍNCIPE. É lá que está escrito que nós nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos. Acredite, jamais negaria a minha responsabilidade sobre o nosso relacionamento. E fico penalizada de saber que você está assim, tão terrivelmente decepcionada comigo. Faço o que posso, você precisa entender.
Jurei que ia te visitar e vou, assim que for possível. Parece mentira esfarrapada, mas, com o passar dos anos, tenho estado com menos tempo disponível para eventos familiares. E você, Culpa, eu já considero da família.
Com certeza, vamos nos ver durante o Natal. Que, para mim, é quase um sinônimo da sua chegada. Senão, fica para o réveillon, quando provavelmente nos encontraremos na hora dos fogos. No máximo, depois do Carnaval - adoro dividir com você as besteiras que faço quando bebo, e me fazem falta seus sábios conselhos.
Calma, não me esqueço do seu aniversário, que se aproxima - é que não sei se poderei ir. Ausência que doerá mais em mim do que em você, pode acreditar. Mas é que estou de dieta, e suas festas, cheias de tentações deliciosas, engordam-me quilos.
Culpa, sei que parece que estou fugindo de você, mas se há um pecado que não cometo é o da injustiça. Carregaria você nos ombros, se você sobrasse para mim, somente. Mas nunca faltarão consciências, por aí, para arcar com você, se isso for necessário.
Tivemos nosso tempo juntas, e agora os anos colocaram distância entre nós. Sinto você aqui comigo, entretanto, neste exato momento. Só que você não é minha nem eu sou sua.Melhoras, Fernanda Young

ASTRONAUTA


Astronauta tá sentindo falta da Terra?
Que falta que essa Terra te faz?
A gente aqui embaixo continua em guerra
Olhando aí pra lua implorando por paz
Então me diz: por que que você quer voltar?
Você não tá feliz onde você está?
Observando tudo a distância
Vendo como a Terra é pequenininha
Como é grande a nossa ignorância
E como a nossa vida é mesquinha
A gente aqui no bagaço, morrendo de cansaço
De tanto lutar por algum espaço
E você, com todo esse espaço na mão
Querendo voltar aqui pro chão?!
Ah não, meu irmão... qual é a tua?
Que bicho te mordeu aí na lua?
Eu vou pro mundo da lua
Que é feito um motel
Aonde os deuses e deusas
Se abraçam e beijam no céu
Ah não, meu irmão... qual é a tua?
Que bicho te mordeu aí na lua?
Fica por aí que é o melhor que cê faz
A vida por aqui tá difícil demais
Aqui no mundo, o negócio tá feio
Tá todo mundo feito cego em tiroteio
Olhando pro alto, procurando a salvação
Ou pelo menos uma orientação
Você já tá perto de Deus, astronauta
Então, me promete
Que pergunta pra ele as respostas
De todas as perguntas e me manda pela internet
Eu vou pro mundo da lua
Que é feito um motel
Aonde os deuses e deusas
Se abraçam e beijam no céu
É tanto progresso que eu pareço criança
Essa vida de internauta me cansa
Astronauta, cê volta e me deixa dar uma volta na nave, passa a chave que eu tô de mudança
Seja bem-vindo, faça o favor
E toma conta do meu computador
Porque eu tô de mala pronta, tô de partida
E a passagem é só de ida
Tô preparado pra decolagem, vou seguir viagem, vou me desconectar
Porque eu já tô de saco cheio e não quero receber nenhum e-mail com notícia dessa merda de lugar
Eu vou pro mundo da lua
Que é feito um motel
Aonde os deuses e deusas
Se abraçam e beijam no céu
Eu vou pra longe, onde não exista gravidade
Pra me livrar do peso da responsabilidade
De viver nesse planeta doente
E ter que achar a cura da cabeça e do coração da gente
Chega de loucura, chega de tortura
Talvez aí no espaço eu ache alguma criatura inteligente
Aqui tem muita gente, mas eu só encontro solidão
Ódio, mentira, ambição
Estrela por aí é o que não falta, astronauta
A Terra é um planeta em extinção
Eu vou pro mundo da lua
Que é feito um motel
Aonde os deuses e deusas
Se abraçam e beijam no céu


Gabriel O Pensador/Lulu Santos

À Pátria amada


Salve, salve. Como está? Melhorou?As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada.Pátria minha, posso ser sincera com você?Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem.Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelas colegas. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira.Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 7 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades.Assuma, Pátria, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos puxa-sacos e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas.Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente a dias piores. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. Quando seu dinheiro valia tão pouco que era motivo de piada.E hoje, Pátria, você não carece de grandes atos de heroísmo, mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Se temos a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome.Freud disse: "Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda a saber quem você é; depois, entenda o que há de errado com você". Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra?Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se é necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão.Já imaginou? Você de verde e amarelo e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Ou simplesmente: "Existo porque insisto". É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.Com amor,Fernanda Young

Paixão, mulheres e amigas


O que as mulheres são capazes de fazer por uma paixão? Praticamente tudo. As apaixonadas vivem em outra dimensão e só se entendem com outras apaixonadas. Alguém, em seu estado normal, pode conceber que, na era pré-celular, havia quem passa- se o dia inteiro em casa porque ele poderia telefonar? E, como nas casas só existia um telefone, ninguém podia falar, para não ocupar a linha. Converse com algumas mulheres dessa época e elas terão muitas histórias para contar,todas ab-so-lu-ta-men-te idênticas.Porque elas(nós),quando se apaixonam,são todas iguais. Experimente perguntar a sua amiga com foi que eles se conheceram,como tudo começou.E pode pegar um livro,disfarçadamente,pois ela vai falar durante horas sem que você precise dizer uma só palavra. As apaixonadas mentem para o chefe com a cara mais inocente e adoecem a tia ou a mãe sem nenhuma culpa,arriscando o emprego e talvez o futuro,para ficar com ele mais algumas horas na manhã de segunda-feira.A criatividade de uma mulher apaixonada não tem limites. Se ele não é totalmemte livre,digamos assim,ela vai descobrir o nome da outra,a profissão,o número do telefone do trabalho,o nome e a idade dos filhos em mi-nu-tos.Para uma mulher apaixonada,é fundamental ter uma amiga com poucos escrúpulos, muito tempo vago, hábil e com talento para fazer todos os papéis, se for preciso - e sempre é. Porque ela é quem vai ligar à noite para saber se ele está em casa,vai se plantar dentro do carro até de madrugada para ver se ele entrará sozinho no apartamento ou com alguma vadia.Essa amiga topa dar uma festa só para você poder usar seu vestido mais sexy- e convidá-lo,claro.Quem tem uma amiga assim tem tudo na vida e, se tiver um amigo- pois às vezes é necessário uma voz de homem- aí é o paraíso.São raros esses amigos tão preciosos, mas eles existem.Uma mulher apaixonada não hesita em cometer os maiores desvarios. Se o telefone dele estiver ocupado durante muito tempo, ela é capaz de ligar para aquela mulher de quem desconfia- e sabe o número de cor-, e, se o dela também estiver ocupado, é elementar:eles estão falando entre si. Ah, as mulheres apaixonadas:por mais sérias que sejam, por mais responsáveis diante do mundo ,viram doidivanas quando um homem consegue atingir seu coração. Elas são maravilhosas, todas tão diferentes e tão iguais; e não existe nada melhor do que ouvi-las falando de seus amores. Entre o papo de duas adolescentes ou de duas mulheres várias vezes casadas e com filhos de diversos maridos,não há diferença. Afinal, não há maior estado de graça do que estar apaixonada. Se você tem uma amiga assim, aproveite para aprender o verdadeiro sentido da vida. E faça isso antes que alguém chame a ambulância do manicômio e o enfermeiro leve-as em camisa de força. A única chance de que elas têm de escapar é se a psiquiatra for mulher e também estiver apaixonada; nesse caso, o papo vai se estender até o dia clarear. A três, é claro. O que seria do mundo sem as mulheres?




Danuza Leão

Para todo mundo menos você

Você não, já disse. Faça o favor de virar a página e seguir em frente na revista.Estou esperando. Não adianta ficar aí quietinha, que eu sei que você continua lendo. Por gentileza, não insista.Ih, já vi que você é teimosa. Mas eu também sou e gostaria que você não lesse esta carta. Queira parar, então.Olha, você está prejudicando todas as outras pessoas do mundo com esse seu comportamento infantil. Eu tenho um assunto importante para tratar com elas e não vou escrever mais nada enquanto você estiver lendo.Falando sério, não vou.Você está a fim de me irritar, não é? Mas não vai conseguir.Escuta aqui: vai parar de ler ou não vai?!Gente, nunca vi uma pessoa tão cabeça-dura. Só que não vai adiantar. Eu peço mais uma vez que você passe para a próxima página. Eu não estou brincando. Não quero que você leia nem mais uma linha.Qual o seu problema, hein? Quer parar com isso? Olha, estou te pedindo gentilmente. Chega, tá? Chega. Tudo bem, se você ler a próxima linha, juro que vou fi car repetindo a mesma letra até você desistir.Eu avisei.xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxNossa, você não desiste mesmo, hein? Muda logo de página, tem um monte de coisas interessantes no resto da revista. Tá, se é assim que você quer, eu não vou escrever mais uma palavra enquanto você estiver aí.Lalá, lalalá, lalá...Por que você é assim, hein? Custa fazer o que eu estou te pedindo? Última chance: ou pára de ler ou vai ter.Só para a sua informação: o nosso Código Penal, em seu artigo 151, considera crime de violação de correspondência "devassar indevidamente o conteúdo de uma carta dirigida a outrem". E a pena é detenção de um a seis meses. Tem certeza de que vai continuar lendo? Lembre-se que as suas digitais estão impressas neste papel.Já chega, vou ligar para o meu advogado.Ok, vamos chegar a um acordo: você lê só mais uma linha e depois pára, tá?Num ninho de mafagafos, havia cinco mafagafinhos. Pronto, agora pára. Pára!É guerra, é? Então, se você ler mais uma linhazinha, eu vou espalhar para todo mundo uma coisa altamente comprometedora que eu sei sobre você. Altamente comprometedora.Tudo bem, foi você que pediu. Lá vai:...Tá, eu estava blefando, não sei nada de comprometedor sobre você. Mas posso descobrir. Contrato um detetive particular e fico por dentro de todos os seus podres. A menos que você pare de ler imediatamente.Eu disse imediatamente. Tsk-tsk-tsk. É lamentável essa sua atitude. La-men-tá-vel.Ah, quer saber? Quer continuar a ler, continua.Essa porcaria de carta já está terminando mesmo.
PS: Não acredito - você ainda está aí?

Fernanda Young




FELICIDADE, SÓ NO PASSADO E NO FUTURO


É preciso tomar cuidado com essa tal de felicidade, e já começar sabendo que ela não é um lugar onde se chega, mas por onde se passa às vezes, por alguns instantes -e, na maioria deles, sem perceber. É estranha, essa tal de felicidade; tão estranha que normalmente só nos referimos a ela como coisa do passado -ah, como eu era feliz- ou do futuro -ah, como vou ser feliz quando, se etc. etc.Tudo existe no presente: ter frio, fome, sede, estar triste, alegre ou sofrendo, menos ser feliz. Você já ouviu alguém dizer "eu sou feliz"? Você já se sentiu, em algum momento, uma pessoa completamente feliz? Mas quantas vezes olhou para trás e disse -e ouviu- que era feliz e não sabia? Pois é.A felicidade é perversa; quando chega, mesmo sem que se perceba, a gente muda. Fica egoísta, não presta atenção nos outros, no mundo; nada interessa, a não ser cuidar da própria vida. Mas nada como um bom sofrimento para fazer você olhar nos olhos de sua empregada de anos e se dar conta de que ela é gente; de que às vezes tem uma dor de cabeça igualzinho à sua, só que não pode ficar deitada no ar refrigerado tocando a campainha de 15 em 15 minutos e pedir um chazinho. E alguma casa deixou de ter uma carne assada, arroz e uma farofinha na mesa do jantar porque a empregada estava resfriada? Pessoas muito felizes, além de egoístas, correm o risco de perder a curiosidade; afinal, se tudo está tão bem, qual a razão para ler um jornal, saber quais as novas descobertas da ciência, se as saias estão mais curtas ou mais longas? Faz parte da felicidade não ter grandes desejos nem grandes anseios -quando se é feliz, não se precisa de mais nada, portanto, não se sonha com mais nada. Quando se quer e se deseja, se luta, se briga, se vive.Estando tudo bem, o melhor é ficar imóvel, rezando para que nada mude, nem o mundo nem as pessoas nem você própria. Portanto, pensando bem, a felicidade é a ser evitada. Por que razão você se cuida, faz ginástica, mechas no cabelo, enche a casa de flores, compra um vestido novo, uma passagem no cartão de crédito, toma um uísque, se perfuma? Para ter a esperança de que aconteça alguma coisa que vai fazer de você uma pessoa mais feliz -começando pelo amor, claro; mas se acha que já é, então não faz mais nada, a não ser inventar o que vai comer no café da manhã, no almoço e no jantar. Aliás, é uma grande delícia acordar com bolo de chocolate e Coca-cola, no almoço uma montanha de pastéis de queijo e camarão com uma cerveja bem gelada, depois deitar numa rede, de preferência debaixo de um coqueiro, e à noite partir para um belo rosbife com um monte de batatas fritas, sem pensar em nada -apenas comendo, desfrutando desse que é um dos grandes prazeres da vida: o paladar, ou falando mais francamente, a gula. Pois cuidado: a felicidade engorda.Mas pensando bem, sua vida está razoavelmente em ordem, não é mesmo? O trabalho vai bem, a família numa relativa paz -dentro do possível, claro-, a vida correndo mansa. Além disso, existem as esperanças: de que o Brasil melhore, de que seja eleito um Congresso mais razoável, de que no próximo verão dê para passar duas semanas na Bahia tomando banho de mar e bebendo água de coco: então, essas não são razões suficientes para ser feliz? Então, o que te impede de dizer, com todas as letras e bem alto, "Eu sou feliz"?O que te impede, amiga, é a memória. Se ela não existisse, todos poderíamos ser muito felizes, ou mesmo um pouco felizes, mas sem dor.Aquela dor que te pega quando você abre uma caixa cheia de fotos de quando era criança, de uma viagem, de amigos que se perderam pela vida. Que inveja de gente que olha para antigas fotos e lembra das coisas sorrindo, felizes. Como fazem? Como conseguem?Só através da memória você aprende, adquire sabedoria, experiência, cultura; sem ela não há história, nem civilização, sem ela os livros não existiriam.Mas a memória é esse mistério que torna tudo possível e só te impede de uma coisa: de ser feliz.


Danuza Leão